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História trágico-marítima

Bernardo Gomes de Brito
604 páginas
ISBN: 978-65-5639-011-6
2ª edição
Introdução e notas: Alexei Bueno
R$ 160,00  R$ 96,00

O MAR INFINITO
Ana Miranda

Se a ciência diz que somos água, significa que a nossa essência é feita dos oce- anos nos quais nos originamos. Isso talvez explique a sensação que nos dá a terrível e bela experiência da leitura desses relatos de naufrágios, a História trágico-marítima. É como se estivéssemos revolvendo partes profundas, não apenas do nosso passado, mas da memória distante, da qual só temos indícios em sonhos e impressões fugazes.

Na leitura da História trágico-marítima, de uma maneira misteriosa nos reconhecemos, pois uma parte de nós vem da herança portuguesa. Somos um país surgido do contato violento entre dois mundos. Se esses relatos versam sobre a odisseia dos nossos navegadores, iluminam na verdade os elementos da fundação da parte branca de nossa cultura. Ficamos sabendo um pouco mais sobre quem eram aqueles antepassados que viveram as grandes navegações. Não os nomes históricos, como Cristóvão Colombo ou Pero Vaz de Caminha, mas os heróis anônimos, os mareantes, os fidalgos, os calafates, os pajens, os línguas, os padres, os pilotos, até mesmo as mulheres que partiam nas naus de carreira. Descobrimos o que sentiam, viam, pensavam, essas pessoas que se atiravam numa esfera desconhecida, habitada por sereias e monstros, o mar português, feito não de água mas de sonhos e medos, pessoas dotadas de uma capacidade quase infinita de suportar o sofrimento e de incertezas semelhantes às que temos hoje em relação ao espaço sideral. Imaginamos o que levava a disputarem um lugar numa aventura que parecia uma tentativa de superação da própria condição humana, pessoas tão diversas, expondo-se à brutalidade, às provações divinas, ou à morte, esbargadas ou feitas em rachas na busca do Paraíso terreno, movidas pelas lendas e pelos grandes livros de aventuras humanas, o Êxodo bíblico, as peripécias de Ulisses, atraídas pela geografia mítica de Marco Polo, vivendo o grande embate entre ciência e imaginação, ambiva- lência que reinou sobre os descobrimentos.

Ler a História trágico-marítima é como navegar no segredo da nossa relação com a natureza e com o mundo, afundar nas misteriosas razões de nossos gestos, nossos sentimentos, nossos medos. Uma experiência terrível, fundamental e, por fim, maravilhosa, pois o narrador é um sobrevivente, e isso nos proporciona a ilusão de que podemos também sobreviver às mais brutais circunstâncias da vida.

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