Arthur Schopenhauer - Mundo como vontade e representação, O (Contraponto Editora)
Mundo como vontade e representação, O

Mundo como vontade e representação, O

Arthur Schopenhauer

432 páginas ISBN: 978-85-85910-41-9 Tradução: M.F. Sá Correia R$ 65.00

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Chega finalmente ao Brasil uma das obras fundamentais da filosofia crítica, O Mundo como Vontade e Representação. Schopenhauer escreveu uma obra-prima, de estilo ao mesmo tempo claro e elevado, áspero e suave, frio e apaixonado, diante do qual é impossível não sentir forte emoção. Temos uma sinfonia sobre o Nada e seus terríveis simulacros. Uma grande sinfonia sobre a condição humana, ferida pela Vontade. E as pedras. E os mares. E os planetas. Schopenhauer trouxe de volta o Nada para a cena contemporânea e demonstrou que o cosmo não é senão o véu de Maia. E dele surgiram – por vias transversas – Nietzsche e Freud, Sartre e Cioran, para a consolidação de novos domínios.

     Schopenhauer associa a visão platônica – das idéias claras e do mundo incerto – com a dialética de Kant – do nômeno e do fenômeno –, para definir suas constantes filosóficas. E da esfera da representação (do que existe apenas para o sujeito), alcança a vontade, como a essência íntima do mundo e – por extensão – dos corpos. Mas o que importa é a dissonância radical entre vontade e representação, prelúdio da Filosofia Trágica. Para atenuar o abismo kantiano, Schopenhauer define primeiramente a vontade como coisa em si, reconsiderando-a, pouco mais tarde, como raiz de todos os fenômenos – e, por isso mesmo, abordável. Volta-se, de modo especial, para a vontade de viver, entendida como força obscura e cega, como impulso terrível e dramático, que move os indivíduos de forma dolorosa e brutal. Não a vontade temperada pela razão (a boúlesis), mas o desejo rude e irrefletido (a thélêma), condicionado pelo instinto de conservação.

     Assim, as forças múltiplas da natureza são os tentáculos da Vontade universal. E a cada estágio de satisfação alcançada, a demanda não diminui. O desejo é omnívoro e incessante. Para Schopenhauer, a vida é um perene combate, em que cada indivíduo é um instrumento da Vontade. E cada qual luta para impor o que lhe parece próprio e necessário. Os animais destroem as plantas, que, por sua vez, consomem água e ar. Todos são inimigos mais ou menos declarados, até a consumação provisória de suas vontades, pois, a cada desejo satisfeito, dez são contrariados. E o mundo não conhece trégua. O escravo da voluntas tira a água do tonel das Danaides e rola a pedra de Sísifo, num jogo infame e cruel.

     Pagamos a vontade de viver, esse estranho sonho de uma sombra. Notamos a dor, mas não a sua falta; a angústia, mas não a serenidade: o bem-estar – portanto – é absolutamente negativo, e compõe uma das parcelas do Nada (se o Nada fosse divisível!). Por isso mesmo, o otimismo é uma opinião ímpia, uma zombaria odiosa, em face das inexprimíveis dores da humanidade.

     Mesmo assim, Schopenhauer vislumbra uma saída, um atalho do nada para o Nada, da vontade à desvontade, da voluntas para a noluntas. Não causa espécie que Schopenhauer mostre um enorme interesse pelo budismo e pelo cristianismo primitivo, onde predomina o conceito de libertação sobre o de criação. Destruir a vontade. Trabalhar para o Nirvana. Superar o puro instinto, para atingir uma piedade cósmica – eis a saída possível. E, assim, numa realidade de escombros – como os da modernidade tardia e sem história, segundo Sloterdijk – surge um mundo em que brilham os raios do Nada, com suas estrelas e galáxias, e que iluminam paradoxalmente – na vida plena do Pensamento – as maravilhosas páginas de O Mundo como Vontade e Representação.


     Marco Lucchesi

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