560 páginas
ISBN: 978-85-85910-44-0
Tradução: Estela dos Santos Abreu
Revisão: César Benjamin
R$ 70.00
Russo por nascimento, alemão por formação, francês por escolha, Kojève foi um intelectual brilhante, dotado de vastÃssima erudição. Sempre envolvido em projetos ambiciosos, quase inacabáveis, publicou relativamente pouco. Vários de seus textos principais, geralmente muito extensos, permaneceram incompletos e tiveram edições póstumas.
Essa Introdução à Leitura de Hegel recupera seus cursos da década de 1930 sobre a Fenomenologia do EspÃrito, obra que foi considerada por Jürgen Habermas “o grande acontecimento da filosofia alemãâ€. Contém textos do próprio Kojève – inclusive a famosa introdução, redigida de forma independente e que se tornou um pequeno clássico – e anotações tomadas por Raymond Queneau, revistas e aprovadas pelo professor. Doze conferências de Kojève e dois outros textos seus sobre Hegel completam o livro.
O curso seguiu passo a passo a obra comentada, mas destacou especialmente o capÃtulo IV da segunda seção, consagrado à consciência-de-si. O ponto de partida para a constituição do sujeito – diz Kojève, lendo Hegel – é o desejo, mas não um desejo dirigido a uma coisa qualquer que exista no mundo. O homem se torna humano quando deseja outro desejo. Abre-se assim, ao homem, um novo espaço de liberdade, que se manifesta antes de tudo como um desejo de reconhecimento e produz uma luta de morte por puro prestÃgio – o ato fundante da história, o ato antropogênico por excelência. Mas, para que haja história, é preciso que haja relação entre homens vivos. A luta não pode terminar com a aniquilação de um dos lados. Um deles deve abdicar do combate, ou seja, colocar sua vida acima de sua liberdade, tornando-se escravo daquele que prosseguiu lutando, por colocar sua liberdade acima de sua vida. Estabelece-se uma relação de tipo senhor-escravo. Porém, nela se desenvolve, concentrada neste segundo pólo, uma outra atividade essencial ao projeto do homem: o trabalho. A descrição da dialética que assim se estabelece é um dos pontos culminantes do pensamento humano em todas as épocas, e sua conclusão é surpreendente: o homem integral, livre, satisfeito com o que é, o homem que se aperfeiçoa, não é o senhor nem o escravo, mas sim o escravo que consegue suprimir sua sujeição. A história humana aponta, pois, nessa direção. Karl Marx será o principal herdeiro intelectual dessa construção. A Fenomenologia do EspÃrito – ou “ciência da experiência da consciênciaâ€, primeiro tÃtulo escolhido por Hegel – é a descrição do caminho das experiências humanas na constituição do EspÃrito, e o fio que as une, nas palavras de Henrique Vaz, “é o próprio discurso dialético que mostra a necessidade de se passar de uma estação a outra, até que o fim se alcance no desvelamento total do sentido do caminho (...).â€
Por isso, a Fenomenologia integra um sistema. Encadeia-se com a Lógica para produzir o saber absoluto, que ajusta plenamente a certeza do sujeito e a verdade do objeto. Para Hegel, só a era iniciada com Kant na filosofia e com a Revolução Francesa na polÃtica criou as condições para a construção desse saber. É este o pensamento detalhadamente analisado por Alexandre Kojève.
César Benjamin
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